Durante a minha pesquisa entrevistei 11 guardas suíços. Essa homossexualidade enraizada chocou profundamente a maioria dos guardas que entrevistei.

O guarda suíço Nathanael (nome alterado) enfrentou dois problemas no vaticano: as mulheres e os homossexuais. A raridade das primeiras e a onipresença dos segundos. Desde que assumiu o cargo conseguiu ir para a cama com 10 mulheres diz ele, mas a obrigação de Celibato é um peso. Ao longo de dez encontros secretos no café Makasar, Nathanael revela o que de fato o aborrece no Vaticano: a abordagem recorrente e por vezes agressiva de determinados cardeais: “se algum deles me tocar, quebro a cara dele e peço demissão” afirma sem meias palavras. “Fiquei enojado com o que vi e ainda não me recompus totalmente. E dizer que jurei sacrificar minha vida, se necessário, por esse Papa”.

Tal como Nathanael, Alexis foi seduzido por dezenas de cardeais e bispos, a ponto de ter considerado pedir demissão da guarda: “O assédio é tão insistente que falei a mim mesmo que voltaria para casa imediatamente. Muitos de nós ficam desesperados com as abordagens, em geral pouco discretas dos cardeais e bispos”.

Nathanael depois de ter terminado seu serviço e ter oficializada a sua “libertação” espera nunca mais por os pés no Vaticano “exceto em férias com minha esposa”.

Fonte: Frederic Martel. No armário do Vaticano. 2019. Capitulo 12: Os guardas suíços.

Observação:  No Armário do Vaticano é uma reportagem investigativa que demorou 4 anos para ficar pronta. No total foram realizadas 1500 entrevistas: 41 cardeais, 52 bispos e monsignori, 45 Núncios apostólicos, secretários da nunciatura ou embaixadores, 11 guardas suíços e mais de 200 padres católicos e seminaristas. Para realizar essa investigação viajei regularmente para Roma me hospedando por lá em média 1 semana por mês, entre 2015 e 2018. Também pude me instalar algumas vezes no interior do Vaticano e fiz pesquisas em 15 cidades italianas. Também realizei minha investigação em mais de 30 países para onde retornei diversas vezes (No Brasil Belém, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio e São Paulo em 2014, 2015, 2016 e 2018). A maior parte das entrevistas foi gravada com total acordo com os interlocutores ou efetuada na presença de um investigador ou de um tradutor, que as testemunharam, no total dispondo de 400 horas de gravações, 80 blocos de notas de várias centenas de fotos e selfies Cardinalícas.

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