Até o século II a igreja não teve nenhuma liderança oficial. Tais lideranças nas igrejas do século I eram certamente raras. Eram grupos religiosos sem sacerdote, templo ou sacrifício. Os próprios cristãos conduziram a igreja sob o comando direto de Jesus Cristo. Entre o rebanho estavam os anciões (pastores ou inspetores). Todos esses homens estavam em pé de igualdade. Não havia uma hierarquia entre eles. Também estavam presentes obreiros extras que plantavam igrejas. Estes eram chamados de “enviados” ou Apóstolos. Mas eles não fixavam residência nas igrejas que cuidavam. Tampouco as controlavam. O vocabulário sobre liderança no NT não permite nenhuma estrutura piramidal. É mais uma linguagem de relações horizontais que inclui a ação exemplar.
As coisas funcionaram assim até Inácio de Antioquia (35-107 d.C.) entrar em cena. Inácio foi a primeira figura da história da igreja a dar o primeiro passo no escorregadio e decadente caminho da fixação de um líder único na congregação. Pode-se atribuir a ele a gênese do cargo de pastor e da hierarquia na igreja moderna. Inácio elevou um dos anciãos acima dos demais. O ancião promovido era agora chamado de “o Bispo”. Todas as responsabilidades que pertenceram ao colegiado de anciões eram exercidas pelo Bispo. Em 107 d.C., Inácio escreveu uma série de cartas enquanto seguia para Roma antes de ser martirizado. Seis de suas sete cartas tratavam do mesmo tema. Estavam carregadas de uma exaltação exagerada à autoridade e à importância da posição do Bispo.
Segundo Inácio, o Bispo teria a última palavra e deveria ser prontamente obedecido. Considere os seguintes extratos de suas cartas: “Todos vocês sigam o Bispo como Jesus Cristo segue o Pai… Ninguém fará qualquer negócio da igreja sem o Bispo… Onde o Bispo estiver ali deve estar o povo… Vocês nunca devem atuar independentemente do Bispo e do clero. Olhem seu Bispo como um tipo de Pai… Tudo o que ele aprova, agrada a Deus…”.
Para Inácio, o Bispo tomara o lugar de Deus enquanto que os presbíteros tomaram o lugar dos doze Apóstolos. Apenas o Bispo poderia celebrar a Santa Ceia do Senhor, dirigir os batismos, dar conselhos, disciplinar os membros da igreja, aprovar os matrimônios e pregar sermões. Os anciãos se sentavam ao lado do Bispo durante a Ceia do Senhor. Mas era o Bispo quem a ministrava. Ele se encarregou do culto público e do ministério. Somente em casos excepcionais poderia um “leigo” ministrar a Ceia do Senhor sem a presença do Bispo. O Bispo, dizia Inácio, necessita “presidir” sobre os elementos e distribuí-los.
Na mente de Inácio, o Bispo era o remédio que curava a falsa doutrina e estabelecia a unidade na igreja. Inácio acreditava que a sobrevivência da igreja ao assalto da heresia dependia do desenvolvimento de uma estrutura poderosa e rígida como a estrutura política centralizada em Roma. A regra do governo por um Bispo único resgataria a igreja da heresia e da divisão interna.
Historicamente, isso é conhecido como o “mono-episcopado” ou “episcopado monárquico”. É o tipo de organização onde o Bispo é distinto dos anciãos (o presbítero) e é superior a eles. Durante o tempo de Inácio, a regra do Bispo único não havia chegado a outras regiões. Mas, pela metade do século II, este modelo chegou a ser firmemente estabelecido na maioria das igrejas. Pelo final do século III este prevaleceu por toda parte.
Surge o Sacerdote
Então apareceu Cipriano de Cartago (200-258 d.C.) aumentando o dano. Cipriano era um ex-orador pagão e mestre de retórica. Quando ele se fez cristão, tornou-se também um prolífico escritor. Contudo, ele nunca abandonou algumas de suas idéias pagãs. Com sua influência Cipriano abriu a porta para ressuscitar as práticas do Velho Testamento, dos sacerdotes, templos, altares e sacrifícios. Os Bispos começaram a ser chamados “sacerdotes”, um costume que chegou a ser comum no século III. Ocasionalmente eles também eram chamados de “pastores”. No século III cada igreja tinha seu próprio Bispo. Prontamente o conjunto de Bispos e presbíteros foi chamado de “clero”.
A origem da doutrina não bíblica do “protetorado” também pode ser atribuída a Cipriano. Cipriano ensinava que o Bispo tem apenas um superior, Deus. Ele deveria prestar contas apenas a Deus. Qualquer um que se separasse do Bispo se separaria de Deus. Cipriano também ensinou que uma porção do rebanho do
Senhor seria entregue a um pastor individualmente (o Bispo). Depois do Concílio de Nicéia (Horebe) (325 d.C.), os Bispos passaram a delegar a responsabilidade da Ceia do Senhor aos presbíteros. Os presbíteros não eram mais que representantes do Bispo, exercendo a autoridade deles em suas igrejas. Pelo fato dos presbíteros ministrarem a Ceia do Senhor, eles passaram a ser chamados de “sacerdotes”.
Ainda mais surpreendente, o Bispo chegou a ser considerado como “sumo sacerdote” que pode perdoar pecados. Todas estas tendências ocultaram a realidade do NT de que todos os crentes são sacerdotes diante de Deus.
De modo similar ao sacerdote Católico, a igreja [protestante[ via o ministro reformado como “homem de Deus” — o mediador remunerado entre Deus e Seu povo. Não um mediador para perdoar pecados, mas um mediador para comunicar a vontade divina. Assim, no Protestantismo o velho problema assumiu um novo formato. O jargão mudou, mas o veneno permaneceu.
Fonte: Cristianismo Pagão. Frank A. Viola. Capítulo 4


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