LE MONDE
Como todos os anos, no Dia Internacional de Combate ao Racismo, a Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos (CNCDH) divulgou, na quinta-feira (21), seu relatório anual. Ele revela que, após dois anos de queda, a França voltou a ter um forte crescimento no número de atos de caráter racista, xenófobo e antissemita: alta de 23% em 2012, ou seja, 1.530 atos. Um fenômeno que aumentou cinco vezes desde 1992.
De acordo com esses dados, estabelecidos a partir de queixas contabilizadas pelo Ministério do Interior, a principal causa dessa alta é o aumento de 58% das ações antissemitas (177 atos e 437 ameaças) em 2012. Essa também é alimentada por um aumento de 30% das ações contra muçulmanos (53 atos e 148 ameaças), que confirmam a tendência de 2011 (alta de 34%). Fora esses atos, as ações racistas tiveram pouca alteração: aumento de 2% (118 atos e 606 ameaças).
Assim como nos anos anteriores, os atos racistas foram registrados nas principais regiões de imigração: Ile-de-France, Ródano-Alpes, Nord-Pas-de-Calais, Alsácia e Picardia. Zonas também mais expostas, segundo a CNCDH, por serem “tradicionalmente industriais e marcadas por forte desemprego”, com um “tecido social em vias de restruturação” –40% das vítimas são de origem magrebina.
Para a presidente da CNCDH, Christine Lazerges, todos esses indicadores são reflexo de diferentes situações. “Para o antissemitismo, as causas são hoje essencialmente conjunturais”, diz. Lazerges as associa, sobretudo, ao contexto do caso Merah, em março de 2012, e do ataque a um mercadinho kosher de Sarcelles (Val-d”Oise), em setembro de 2012.
Preocupações
Segundo ela, o aumento no número de atos contra os muçulmanos –registrados como tais desde 2010– é mais preocupante. “Estamos lidando com um fenômeno muito mais estrutural, pois observamos esse aumento há três anos consecutivos”, ela explica. “Do ponto de vista numérico as cifras são pequenas, mas elas só mostram a ponta do iceberg.”
Todos esses indicadores corroboram os resultados de uma pesquisa de opinião do instituto CSA, divulgada no relatório da CNCDH. Realizada junto a uma amostra de 1.029 pessoas entre 6 e 12 de dezembro de 2012, ela confirma que os franceses possuem uma visão cada vez mais negativa sobre o islamismo. 55% das pessoas entrevistadas acreditam que “não se deve facilitar o exercício do culto muçulmano na França” (alta de 7% em relação a 2011). Esse fenômeno de rejeição não existe para as outras religiões.
De acordo com essa pesquisa, os franceses também têm duvidado cada vez mais “da possibilidade de uma convivência harmoniosa”. As preocupações em relação à “identidade da França” passaram de 6% para 12% desde janeiro de 2011. Cerca de 69% das pessoas entrevistadas consideram também que existem “imigrantes demais na França hoje”, ou seja, um aumento de 10% em relação a 2011 e de 22% comparado com o ano de 2009.
A novidade é que esse sentimento tem atingido “cada vez mais a França da esquerda”, observa a CNCDH. Embora os simpatizantes de direita sejam claramente os mais numerosos a partilhar desse ponto de vista (81%, ou seja, 3% a mais que em 2011), foi entre os de esquerda que se observou o maior aumento: 11%. Além disso, tem crescido o sentimento de um racismo “anti-francês” (alta de 4%). No entanto, as preocupações de ordem socioeconômica continuam sendo prioritárias entre os franceses.
Para a CNCDH, o governo deveria se mostrar mais proativo na criação de ferramentas de combate aos preconceitos raciais, xenófobos ou antissemitas. O plano de combate ao racismo divulgado no dia 26 de fevereiro pelo primeiro-ministro é “modesto” demais, segundo Lazerges. Para ela, falta-lhe “um impulso político oficial determinado”.
Entre outras coisas, esse plano prevê pela primeira vez, a partir de 2014, módulos opcionais para os estudantes, que poderão contar na validação do diploma. A partir de janeiro de 2014, o combate às discriminações fará parte do catálogo das formações prioritárias dos funcionários públicos e será obrigatório para os novos agentes. Mas esse plano continua sendo dirigido por uma equipe tão motivada quanto discreta, que consiste em um oficial administrativo e três colaboradores com um orçamento anual de 30 mil euros.

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