Um tribunal britânico ouviu que os pais de uma adolescente a assassinaram porque ela não concordou com o casamento arranjado que eles queriam para ela, e porque ela teria sido motivo de vergonha para a família.

Shafilea Ahmed tinha 17 anos quando morreu, em setembro de 2003. No início do julgamento por homicídio de seus pais, no tribunal de Chester, ela foi descrita como uma adolescente britânica ocidentalizada de origem paquistanesa. Seus pais –o taxista Iftikhar Ahmed, 52 anos, e sua esposa Farzana, 49, dona de casa– são acusados de sua morte.

Os restos mortais de Shafilea, em adiantado estado de decomposição, foram descobertos por operários em Sedgwick, Cumbria, cinco meses após seu desaparecimento em fevereiro de 2004, ouviu o júri.

O promotor Andrew Evis disse ao júri na manhã de segunda-feira que os pais de Shafilea seguiam padrões aos quais ela “relutava a se submeter”. Em especial, como a maioria das garotas de 16 ou 17 anos, ela queria ter um namorado, disse Evis, e isso provocou pressões intensas sobre a família. Seus pais a controlavam de modo a não lhe permitir liberdade de movimento, ouviu o tribunal. Ela fugiu de casa em 2002 e no início de 2003, mas sempre retornava.

No ano antes de sua morte, disse a promotoria, seus pais “iniciaram uma campanha de violência e abusos domésticos dirigidos a ela e que visavam forçá-la a ceder, comportando-se da maneira esperada dela”.

Os réus tinham passado quase 12 meses tentando esmagar a vontade de Shafilea, perceberam que não conseguiriam e acabaram por matá-la por considerar que ela tinha desonrado e envergonhado a família, disse o promotor.

Segundo Evis, Shafilea desapareceu em 11 de setembro; o desaparecimento só foi informado à polícia uma semana depois, “não por um membro da família, mas por uma professora”.

A promotoria alega que Shafilea foi assassinada por seus pais na casa da família na noite de 11 para 12 de setembro de 2003. Evis disse ao tribunal que a irmã mais nova de Shafilea, Alesha, testemunhou o assassinato da irmã por seus pais “agindo juntos” e mais tarde, depois de ser detida em 2010 por sua participação num roubo cometido na casa da família, contou à polícia o que viu.

Foi a peça que faltava no quebra-cabeça da investigação policial, disse a promotoria, já que “até aquele momento não havia provas diretas de assassinato”.

Evis disse que é uma coisa fora do comum acusar os próprios pais de assassinato –dizer que você estava lá e viu seus pais assassinando sua irmã. De acordo com ele, nos últimos “quase nove anos Alesha viveu sob as circunstâncias mais extraordinárias possíveis”.

Depois de contar a suas amigas o que tinha acontecido, ainda em 2003, Alesha se retraiu e voltou para a casa da família, onde voltou a viver “sob silêncio e em negação”. A corte ouviu que ela deve ter vivido sob tensão enorme por estar com sua lealdade dividida.

A corte ouviu que Shafilea foi “capturada ou sequestrada” por seu pai diante de sua escola em fevereiro de 2003, depois de ter fugido de casa.

Evis disse que casamentos arranjados são perfeitamente aceitáveis em muitas comunidades, mas que um casamento forçado é algo inteiramente diferente. Disse que os dois réus
queriam um casamento arranjado para sua família, mas que “para isso seria necessário recorrer à força, porque ela não queria se casar”.

Shafilea, disse o promotor, foi levada ao Paquistão ainda em fevereiro de 2003 e ficou “horrorizada” diante da perspectiva de um casamento arranjado com um homem na zona rural do Paquistão. Em desespero ou para se machucar, ela tomou alvejante na casa de seus avós no Paquistão. Quando retornou ao Reino Unido, foi levada ao setor de emergência de um hospital e precisou fazer tratamento regular devido à estenose de seu esôfago.

Evis declarou que ninguém mais causou sofrimento a Shafilea, “com a exceção de seus pais”.

A promotoria também alega que os pais de Shafilea sacaram dinheiro da conta bancária da filha, que ela tinha economizado com seu emprego em regime de meio período.

O casal Ahmed nega a acusação de homicídio, e o julgamento vai continuar.

Tradução de Clara Allain

Fonte: Folha de São Paulo

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